A religião entre os imigrantes alemães e seus descendentes

 

Martin N. Dreher*

 

         Em termos religiosos, a imigração alemã para o Brasil trouxe uma série de novidades para o Brasil. Quando os veleiros que traziam imigrantes para Nova Friburgo/RJ já estavam a caminho, Dom Pedro I, criou através da Constituição outorgada em 1824  a base legal para o ingresso de muitos destes imigrantes. O Parágrafo 5 da Constituição Imperial criava o status da tolerância para os imigrantes ditos acatólicos. Pela primeira vez, grupos de cristãos não católicos podiam entrar no país, em maior número, e aqui organizar-se como comunidade religiosa, mesmo que o mencionado parágrafo restringisse esta tolerância ao âmbito de prédios sem forma exterior de templo. Entre estes imigrantes acatólicos encontramos luteranos, calvinistas, unidos, batistas e, mais tarde, adventistas.

         Via de regra desconsiderados pela historiografia da imigração, jamais deveriam ser esquecidos judeus alemães que, no entanto, não puderam constituir comunidade sinagogal, sendo assimilados. Em alguns cemitérios de imigrantes, porém, a estrela de Davi, inscrita na pedra tumular, lembra sua existência. Sua memória também está presente em diversas localidades quer ficaram conhecidas como Judengassen.

         Se foi impactante o ingresso de imigrantes acatólicos, o que provocaria, na seqüência, toda uma discussão dos direitos civis destes mesmos acatólicos, não menos impactante foi o ingresso dos imigrantes alemães católicos. Traziam eles um catolicismo profundamente distinto daquele cultivado no Brasil, no qual havia falta crônica de sacerdotes, e, em conseqüência, a piedade era menos centrada nos sacramentos e mais na piedade devocional, menos no sacerdote e mais no santo. Grosso modo podemos dizer que o imigrante alemão católico traz consigo o catolicismo da reforma de Trento, enquanto que no Brasil impera o catolicismo pré-tridentino. Enquanto, os acatólicos trouxeram consigo pastores, o mesmo não aconteceu com os católicos. Aqui a religião, que se distanciava do catolicismo encontrado no Brasil, reuniu-se comunitariamente em capelas, nas quais se preservou o legado da Alemanha. Foi com base neste legado que, mais tarde, sacerdotes jesuítas, seguidos de outras ordens e congregações religiosas masculinas e femininas, puderam dar início ao trabalho que se convenciou designar de restauração do catolicismo no Brasil.

         Apesar das diferenças confessionais, acatólicos e católicos tiveram características em comum. Ambos construíram, em mutirão, seus cemitérios suas escolas, suas capelas, tiveram seus professores e centros de formação de professores, acompanharam seus migrantes, preocuparam-se com a sorte destes migrantes nas novas fronteiras agrícolas, produziram seus jornais, seus almanaques. As associações de leigos criaram cooperativas e hospitais, maternidades e ancionatos. Na fé encontravam elemento importante para sobreviver na mata e preservar um pouco do que haviam herdado de seus pais.

        

 

 

 

 

 

 

 

 

 



* Professor do Programa de Pós-Graduação em História na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS.